O ritmo frenético dos nossos dias trai a nossa visão dos factos e faz-nos abstrair do que nos rodeia. De repente, no único trajecto diário que conhecemos (casa/trabalho/casa) reparamos num edifício quase construído do outro lado da estrada num parvo “Ui…! Como é que isto veio aqui parar?!”, admirados com a nossa estupenda visão periférica.
Mas não ficamos por aqui.
Embrutecidos pelo crédito da casa, do carro, da viagem de férias, etc., levamos a vida a olhar para o nosso umbigo, ansiosamente refastelados no sofá lá de casa. Distraídos pelo mundo, monopolizando o controlo remoto num zapping estonteante, num desporto de levar os nervos ao pico dos restantes cúmplices do nosso agregado familiar.
De repente, paramos por um segundo na viagem de regresso a casa, depois de um stressante e entediante dia no escritório, e olhamos em redor. E sem darmos por isso, somos meros espectadores da nossa própria vida, parte de uma obra bem maior que a nossa pequenez egoísta.
Percebemos que enquanto ansiamos pelo nosso trono da sala, outros percorrem as ruas na sombra das entradas das lojas. Enquanto assistimos ao nosso programa favorito degustando um qualquer mimo gastronómico, outros basculham o lixo em busca do mais pequeno pedaço de comida que consiga enganar a própria boca. Enquanto brincamos às etnias em folia carnavalesca, outros carregam vivem nessas máscaras uma vida, lutando apenas para que os vejamos como iguais.
Hoje aprendemos a olharmo-nos ao espelho. E, principalmente, a ver aquilo que os nossos olhos escondem na maior parte das vezes. Umas por repulsa. Outras por conveniência. E talvez a mais importante delas todas, por medo.
Adormecidos em camas pedra-mármore, embrulhados em edredões de papelão dum qualquer electrodoméstico, vemos iguais abandonados pelos seus ou sem eles, perdidos, sem qualquer sentido a seguir ou direcção a tomar. Vemos licenciados, indiferenciados, quadros médios ou analfabetos, apenas tendo como tecto o universo.
São gente da minha terra, moribundos num jazigo nómada.
E receamos o dia do Amanhã, de ver nos olhos de alguém conhecido a mesma imagem que tanto nos repulsa ou que, convenientemente, ignoramos.
A globalização ou a crise. A economia ou a sociedade. Mitos urbanos que, alternadamente, vão servindo de desculpa ou razão para a justificação da fraqueza humana.
Hoje percebemos que os nossos horizontes são bem maiores do que aqueles que a nossa vista alcança e que a humanidade e a cidadania deveria ser bem mais que apenas conceito.
Começa com um pequeno gesto todos os dias.
Um pequeno momento mágico num circo cada vez maior que é a nossa vida.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
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